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  Biológicas e da Saúde
Fitoterápicos: alternativa para o Brasil

Por Lauro E. S. Barata*

Era domingo e lia meu jornal ao sol cálido da manhã, quando observei que meu fiel Apollo não parecia bem. Furiosamente tinha rasgado parte do primeiro caderno do Estadão, de modo que lendo o que sobrou da manchete "EUA congela (rasgado) Bin Laden" tive um calafrio. Felizmente, não demorei muito á encontrar o pedaço do jornal que faltava onde se lia "recursos de".

        Recomposto do susto, notei que meu cão se dirigia à uma moita de Capim Erva Cidreira, e por uns bons cinco minutos mastigou a erva. Eu tinha viajado muito durante aquela semana, e animais, como pessoas, sentem a falta do seu dono. Ele estava nervoso e irritado e agora, instintivamente, procurava uma planta calmante. A Erva Cidreira (Cimbopogom citratus) é de fato indicada para nervosismo, insônia e ansiedade. Então Apollo também sabia disso, ou tinha apenas usado o instinto animal, que o homem também parece ter, de lutar ferozmente contra a doença e a morte? Nunca saberei responder, mas o certo é que estudos científicos na África, mostram que os chimpanzés quando acometidos de verminoses, procuram espontaneamente certas folhas e as consomem. A análise parasitológica das fezes destes animais mostrou que vários tipos de vermes são expelidos pelo uso das plantas. Não demorou muito e Apollo estava de novo afável, cordial e babando, normal. A Fitoterapia canina usando a planta in natura tinha produzido o efeito esperado. Mas também nós não a usamos?

        No Brasil, pelo menos trezentas plantas medicinais fazem parte do arsenal terapêutico da população. Desconhecida, desdenhada ou até abominada pelos médicos, plantas medicinais são consumidas tanto pelos favelados como pela classe de maior poder econômico, constituindo no Brasil um mercado de US$ 400 milhões. E ainda são recomendadas pela ONU que percebeu que 2/3 da população da Terra utiliza plantas medicinais. Mesmo assim, muitos pensam que plantas medicinais são um engodo, coisa de umbandista e ignorantes, mas será que funcionam mesmo?

        A resposta desta questão é complexa, mas começou dez mil anos atrás. Estudos arqueológicos têm mostrado através da análise de pólens e outros materiais, que os homens das cavernas já utilizavam plantas medicinais. Estudioso das plantas medicinais, deparei-me no British Museum de Londres, com a escrita cuneiforme da Babilônia que informava o uso de inúmeras plantas. Mas as primeiras testemunhas do uso das plantas na medicina, foram os papiros egípcios, os escritos chineses nas folhas de bambu e as taboas de argila dos Sumérios. No ano 3000 AC, no Egito antigo, os papiros registraram o uso de quinhentas plantas medicinais: Menta, Alecrim, Camomila, Absinto, Babosa, Terebentina, Tomilho e plantas da família Solanacea usadas até hoje.

        No entanto, o primeiro Tratado de Medicina só aparece mil anos antes de Jesus Cristo no vale do Tigre e Eufrates, onde hoje estão o Irã e o Iraque, berço da civilização, quem diria. No Vale do Nilo, bem próximo daí, os primeiros médicos eram os Reis como Athotis (4000 AC) ou Queops (2750 AC), e parece que a tradição perdura até hoje. Os Reis foram sucedidos por médicos funcionários reais "recrutados por concurso" e hierarquizados ao serviço dos faraós do Nilo. Mais tarde, já na Grécia e Roma Antiga a medicina, se torna de domínio dos cidadãos em geral, não mais dos sacerdotes. Em 600 a.C., Atenas decreta que "todo cidadão tem direito a cuidados médicos gratuitos, pagos pelo Estado", um tipo de INSS local. Tal benevolência era custeada por um imposto real denominado "Iatricon" que aqui conhecemos como CPMF.

        Depois vem a história, mais ou menos conhecida de Hipócrates (460-377 AC), Dioscorides (100 DC) e Galeno (130-200 DC). A medicina deixa o esoterismo e a imprevisibilidade dos caprichos divinos e avança cientificamente no terreno da terapêutica, classificação das doenças, posologia e diagnóstico. Durante mil anos, porém, fez-se trevas na Europa, e só em 1220 nasce a primeira Grande Escola de Medicina da Idade Média, em Salerno, perto de Roma, fundada por Carlos Magno. Os estudos de Farmácia avançaram celeremente neste período. Extratos alcoólicos, como o vinho ou os destilados como a vodka e o gim, já eram bem conhecidos na Europa para extrair o "espírito das plantas". E ainda são usados nas garrafadas de plantas medicinais que se pode comprar no mercado do Ver-o-Pêso de Belém, ou no Mercado Público de Porto Alegre.

        Métodos de extração mais eficientes, foram adotados por volta dos anos 1500 quando ainda andávamos nus. O éter etílico, produto da reação de duas moléculas de álcool etílico com ácido sulfúrico, que parece ter sido inventado pelos Alquimistas, foi usado por Paracelsus na Alemanha. O "extrato etéreo" das plantas concentrava os princípios ativos e tornava mais poderosa a preparação das drogas.

        Quando o Brasil foi descoberto, a Fitoterapia reinava praticamente sozinha, não havia vacinas nem os medicamentos sintéticos, que só aparecem no final do século XIX com a aspirina. Sintetizada em 1896 por Felix Hofmann, um químico da Bayer, esta molécula foi inspirada numa substância natural contida numa planta do gênero Salix, o Ácido Salicílico. Hoje, dez milhões de quilos de Aspirina são produzidos, enquanto o Ácido Salicílico continua sendo produzido em pequeníssimas quantidades pela planta Salix. Com a síntese da Aspirina, desaparecem as propriedades indesejáveis de irritar a parede gástrica e mantêm-se as propriedades anti-inflamatória, analgésica e antipirética.

        A Fitoterapia manteve seu domínio até os anos quarenta do século passado quando a Sulfa, um medicamento sintético derivado da química de corantes dos alemães, revolucionou a terapia das infecções. A partir daí, as substâncias sintéticas prosperaram e hoje perfazem mais de 50% do arsenal terapêutico, parte do mercado mundial farmacêutico de US$ 350 bilhões.

        Os medicamentos sintéticos tem inúmeras vantagens, custo de produção mais baixo, produção industrial e controle de qualidade relativamente fácil. Pode-se produzir uma tonelada de um sintético em poucas horas. No entanto, para extrair e purificar um princípio ativo de 1 tonelada de folhas, pode-se levar semanas. E se o rendimento da substância na planta for de 0,1% , de cada tonelada obter-se-á apenas 1kg de produto.

        Plantas medicinais produzem diferentes substâncias químicas (alcalóides, esteróides, terpenos...) e o fazem em diferentes proporções, dependendo da ecologia do lugar, do regime de chuvas, da insolação, do solo etc...Mas isso ainda não é tudo, nem sempre a planta é acessível, nem sempre se encontra nas quantidades necessárias e ainda podem produzir misturas de separação extremamente complicada. Este é o caso da Quina (Cinchona officinalis), uma planta Amazônica. Introduzida nas farmacopéias européias desde o século XVII era conhecida pelos índios do Peru desde sempre e foi deles que os jesuítas retiraram seu segredo levando-o para a Europa onde grassava o impaludismo (malária). A biopirataria apenas começava.

        As cascas da Quina contêm uma mistura de 35 alcalóides, que devem ser separados do Quinino, o principal alcalóide ativo em malária, e que está presente em 1% nas cascas. Assim, são necessárias mil árvores ou 100 toneladas de cascas para produzir 1 tonelada de Quinino. A síntese de substâncias naturais por vezes é extremamente difícil. Apesar de ter sido isolado em 1820, a síntese do Quinino só foi possível em 1944, mas o anti-malárico mais usado no mundo é a Cloroquina, um produto sintético inspirado no Quinino de custo muito baixo, e aí mais uma vantagem dos produtos sintéticos, seu preço.

        Se os sintéticos têm assim tantas vantagens, porque hoje se vê o renascimento dos Produtos Naturais? Para responder a esta pergunta, há de se recuar no túnel do tempo chegando-se ao movimento hyppie dos anos sessenta, que iniciam os protestos contra tudo aquilo que é artificial, "químico", e por conseguinte voltam aos velhos e bons hábitos naturalistas. Assim, os medicamentos de síntese são vetados por aqueles que preconizavam o "faça amor não faça a guerra". Mas não só eles, as minorias e os seus (bons) hábitos alimentares, passaram a ser reconhecidas. Aí reaparecem as velhas fórmulas, para cuidar do corpo e do espírito. Yoga, tae-kown-do, tarot e outras magias. A cosmética segue o mesmo passo. Pele desvitalizada? Porque não tenta um creme à base de ovos? Se não funcionar, faça um omelete.

        A tecnologia contribuiu muito para que os Fitofármacos firmassem sua posição. Hoje as 125 principais indústrias farmacêuticas do mundo realizam pesquisas com produtos de plantas, porisso 2/3 dos medicamentos lançados nos últimos anos nos EUA, provém direta ou indiretamente de plantas. O Taxol para a terapia do câncer é apenas um deles. Os novos equipamentos informatizados fizeram avançar vertiginosamente a química estrutural. Mas não só isso, nos anos 80 era possível realizar apenas milhares de ensaios por ano, hoje as empresas farmacêuticas fazem cem mil ensaios robotizados em uma semana. Estas ferramentas são hoje indispensáveis para realizar a prospecção da Biodiversidade, na busca de novos produtos farmacêuticos.

        O Brasil tem uma mega-biodiversidade de 55.000 espécies de plantas superiores. Pesquisas nas Universidades e Institutos de Pesquisa, revelam substâncias ativas em câncer, aids, analgésicos, antibióticos e um sem número de outras utilidades até na cosmética. Com sorte, 1% dessas plantas foi estudada química e/ou farmacologicamente. O Brasil tem também um corpo de cientistas invejável e recursos para pesquisa. Este ano produziremos 6000 doutores da melhor qualidade, e segundo o MCT haverá R$2 bilhões para o sistema de Ciência e Tecnologia no próximo ano. Também temos empresas farmacêuticas de boa qualidade e competência, mas ainda não conseguimos fazer o nosso primeiro Fitoterápico[8]. Porquê? Este artigo não pretende responder, simplesmente direi que é uma questão complicada, e prefiro voltar à questão da Fitoterapia.

        Fitoterápico é uma mistura que pode incluir diferentes produtos do metabolismo primário como os triglicérides (gorduras vegetais) e açúcares, os sais minerais, vitaminas, corantes e clorofilas e substâncias do metabolismo secundário que são biologicamente ativas como os flavonóides, alcalóides, terpenos etc...Fitoterápicos são produzidos à partir de Plantas Medicinais, normalmente por extração com misturas de etanol-água, que as vezes são liofilizados ou evaporados por spray drying, a mesma técnica para fazer café solúvel ou leite em pó. Algumas pessoas acreditam que sendo natural não faz mal, e não é bem assim. A Aflatoxina, uma substância de um fungo presente em quase todo amendoim, paçoca, canjica e outras gostosuras, causa câncer no fígado, e pior, é cumulativo, quer dizer que aquele pé de moleque que você comeu na festa de São João do ano atrasado ainda está presente em você hoje!

        Mesmo plantas medicinais que "curam", como o Mentrasto (Ageratum conyzoides) que é efetivo contra o reumatismo, é hepatotóxico devido a alcalóides pirrolizidinicos. Isto foi verificado no nosso laboratório quando alertamos o Ministério da Saúde (CEME) há alguns anos atrás, e tal como o Confrey (Symphytum officinalis) aquela planta foi retirada da sua lista prioritária.

        A Erva de São João (Hypericum perforatum)[9], originária da Europa, é usada como sedativo e substitui os benzodiazepínicos como o Valium®. O princípio ativo desta planta acredita-se ser a Hipericina, uma diantrona, mas não há comprovação científica disso.

        Os requisitos básicos para o uso de uma planta medicinal ou um Fitoterápico, são o controle de qualidade, a segurança e a eficácia. Na Alemanha os Fitoterápicos são consideradas drogas éticas, isto é, tem controle de qualidade, segurança e eficácia, as mesmas qualificações exigidas para os sintéticos. No Brasil a ANVISA (Ministério da Saúde) , só no ano passado reeditou portaria que exige dos fabricantes estas qualificações. O controle de qualidade, tem aumentado muito nos últimos anos, e tem sido feito pelas próprias indústrias, mas ainda existem empresas que não o fazem. Inclui o controle de qualidade químico e o microbiológico para verificar se existem fungos ou bactérias presentes nas plantas medicinais e extratos que vão para o público. Por segurança entende-se que antes de ser colocado no comércio e administrado a pacientes, o Fitoterápico deve ter passado por ensaios de toxicidade para ver se o extrato ou a planta não são tóxicos. A eficácia é garantida por ensaios pré-clínicos em órgãos isolados e animais, normalmente camundongos. Se o Fitoterápico passa por todos esses testes é habilitado a passar a fase clínica, isto é, pode ser testado no homem. Mesmo aí temos quatro etapas, e no final o teste é feito em milhares de pacientes. É claro que todas essas etapas têm custo muito alto, e tempo longo. Talvez isto responda porque não existe nenhum medicamento Fitoterápico brasileiro ainda.

        O Brasil com sua fantástica biodiversidade, o seu conhecimento popular do uso das plantas medicinais, sua ciência e tecnologia que é a melhor das Américas, excluindo os EUA, e suas empresas competentes, tem praticamente tudo para desenvolver seus próprios Fitoterápicos. Falta certamente uma política voltada a esse interesse nacional. Quando nós conseguirmos fazê-la, ganharemos de prêmio um mercado mundial de US$ 22 bilhões.

Fonte: http://www.comciencia.br

*Lauro E. S. Barata é professor de Química orgânica do Instituto de Química da Uicamp




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